SUPERMAN | REVIEW

Capturando a essência do que é ser humano

Superman inicia nos cinemas o novo universo da DC que, assim como o filme, é comandado por James Gunn. O longa é a forma quase perfeita para o pontapé desse universo. Ao mesmo tempo em que apresenta uma aventura diferente do herói e nos situa em um mundo de heróis e vilões já em andamento, o filme consegue, com muito sucesso, se sustentar com originalidade e muito, mas muito coração.

Gunn, em seu roteiro, mostra entender profundamente o personagem. Ele captura a essência humana do Kal-El em uma história que nos faz pensar sobre política, amor, bondade, esperança e humanidade — sempre mantendo sua comédia de alto-astral certeira. Para tal, o cineasta entende que não precisamos ver novamente a origem do herói, começando sua narrativa no meio da ação, deixando claro que, existindo a três anos, o herói sempre venceu suas batalhas e é adorado pelo público, até essa de agora. Gunn usa muito bem esse aspecto do Superman se encontrando pela primeira em um conflito que o desafia tanto física quanto mentalmente para dar início a sua narrativa.

Ao colocar o personagem no centro de um conflito político e, ao mesmo tempo, usar as consequências dos atos de interferência do herói como o ponto de partida da narrativa, o filme questiona a ideia da simbologia que o Superman representa. Felizmente, ao invés de só jogar isso no ar, o longa investe nesse tema durante toda a sua duração. Ele usa essa abordagem como parte da motivação do antagonista e como ponto de reflexão para o próprio Clark Kent.

Da mesma forma, o roteiro mostra a essência do que é o Superman: o ser mais poderoso do mundo, que tem o poder de acabar com as maiores ameaças, mas não deixa de se preocupar com cada vida que pode salvar — indo além de outras pessoas, salvando também animais em meio a batalhas gigantescas.

Em seus atos e falas, brilhantemente pensados por Gunn, o herói demonstra de forma clara a bondade em seu coração e seu amor por todos ao seu redor, mesmo aqueles que ele não conhece. Para esse super ser, um comerciante de rua que o entregou um alimento uma vez importa tanto quanto qualquer outro que ele ama. E, quando ele não consegue salvar uma pessoa, ele se culpa e se mostra frágil — mais humano que muitos que, diferente dele, realmente são.

Além disso tudo, Gunn utiliza elementos de sci-fi e fantasia que sempre fizeram falta nas produções envolvendo o personagem. É uma mistura de ficção científica espacial com monstros, criaturas e diversos seres poderosos. Isso ajuda muito a estabelecer a escala grandiosa da aventura e do novo universo, que, apesar de estarmos conhecendo agora, já está em andamento. Vários elementos como monstros e outras coisas surgem em tela de repente, mas isso é entendível para mim já que como falei, o mundo já conhece e está tomado por super seres. Cito por exemplo, a ideia dos macacos bots do Lex e o bebê kaiju que cresce do nada. 

Já na parte da direção — também comandada por James Gunn —, o cineasta retrata muito bem a escala épica da história. Ao mesmo tempo em que mostra a atuação do herói como um ser hiperpoderoso, o filme tem a missão de nos apresentar esse universo repleto de heróis, vilões e criaturas. Gunn pensa tão bem como construir seus personagens e suas relações que, até diálogos se tornam uma cena de ação, por exemplo a conversa entre Clark e Lois que, apesar de ser muito longa, não cansa e diz muito sobre ambos e a situação que o mundo e o relacionamento deles se encontram.

Apesar de alguns leves tropeços na montagem, o estilo de ação que o diretor já havia demonstrado em seu filme anterior, Guardiões da Galáxia Vol. 3, é ainda mais bem executado aqui. Temos cenas de combate que aproveitam perfeitamente os poderes de cada personagem apresentado, sejam heróis ou vilões. Destaco principalmente a capacidade do cineasta de captar o voo do protagonista e tudo que ele consegue realizar na ação enquanto está no ar.

David Corenswet entende profundamente a dualidade entre Clark e Superman, equilibrando o fato de ser o ser mais poderoso do mundo com a essência humana que o roteiro coloca, de forma brilhante, no personagem. Mesmo que ele não tenha muito tempo para brilhar como Clark, é na entrega das expressões e falas que o ator demonstra saber exatamente o que está fazendo e entender quem é o personagem. E não posso deixar de destacar o quanto o roteiro entende o papel do Krypto como um supercão na ação, mas ainda sendo um cachorro que faz coisas que um cachorro faz.

Rachel Brosnahan está extremamente cativante como Lois Lane. Ela se mostra uma repórter poderosamente questionadora e cheia de personalidade, ao mesmo tempo em que constrói uma relação envolvente com Clark/Superman. Já Nicholas Hoult entrega um Lex Luthor malvado e ardiloso — daqueles vilões que você adora odiar, e quando é castigado, você vibra. É narcisista e invejo como o vilão deve ser, lutando com o herói título por meio dessas características e pela sua inteligência. E isso é ótimo para o filme, já que suas ações e falas absurdas se encaixam perfeitamente no que o roteiro pensou para ele. A ideia do Lex comandar seus planos “jogando” contra o Superman, com um time de pessoas controlando os vilões físicos é genial. Para mim, de longe, são a melhor encarnação do Lex e da Lois que já vi.

Impossível não falar da Gangue da Justiça — nome temporário. Edi Gathegi nos apresenta ao Senhor Incrível, um herói que, mesmo com sua personalidade… diferente, nos conquista com falas pontuais e uma ação que brilha aos olhos. O Lanterna Verde Guy Gardner, interpretado por Nathan Fillion, consegue a impecável dualidade de ser maneiro na ação, mas com uma personalidade babaca única. Anthony Carrigan, como Metamorfo, é responsável por muitas das cenas de ação que melhor aproveitam a variedade e as possibilidades dos poderes dos personagens em tela.

Mesmo com pouco tempo de tela, destaco bastante o elenco coadjuvante, que — interpretando personagens com características e personalidades únicas — tem seus momentos para brilhar. María Gabriela de Faría, como a vilã Engenheira, brilha em suas cenas de ação. Skyler Gisondo e Sara Sampaio, como Jimmy Olsen e Eve Teschmacher, respectivamente, são essenciais para o andamento da trama em momentos cruciais de resolução.

Pruitt Taylor Vince e Neva Howell, como Pa Kent e Ma Kent, têm poucas cenas, mas fazem com que acreditemos que, desde pequeno, Clark foi criado em um ambiente de carinho e amor — o que justifica o Superman que ele se tornou. Facilmente, já são os melhores pais do Superman que vi.

O filme tem algumas questões de estrutura e mesmices do cinema de super-herói, mas são tão pequenas que nem vale a pena comentar.

Para fazer o Superman funcionar um filme do personagem tem que acertar muito no Clark Kent, e esse aqui faz melhor que todos os outros. Superman passa longe de ser inovador, mas ao entender a essência do personagem e entregar com muito sucesso uma aventura cheia de ação, elementos sci-fi e fantasia, o filme se consagra como um ótimo início para o novo Universo DC nos cinemas. Um cinema de herói colorido, alegre e que faz o olho brilhar, em todos sentidos. É bom demais, e quase tudo é na conta de James Gunn. Podemos afirmar: a DC finalmente está em boas mãos.

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