O silêncio ensurdecedor da incerteza nuclear

A vencedora do Oscar Kathryn Bigelow retorna com Casa de Dinamite, sua primeira parceria com a Netflix, um thriller político que reflete diretamente o estado de ansiedade global em torno do tema da guerra nuclear. A diretora, conhecida por sua precisão em retratar o caos e a tensão — como visto em Guerra ao Terror e A Hora Mais Escura —, agora volta seu olhar para uma possível crise contemporânea, explorando o medo do colapso.
O filme tem como objetivo principal discutir a angústia que permeia o cenário geopolítico atual, abordando as camadas de decisão e responsabilidade em torno de uma ameaça nuclear. Quem deve reagir? Quando? E a que custo? Bigelow transforma essas perguntas em combustível para um suspense claustrofóbico, no qual cada decisão carrega um peso gigante.

O roteiro de cara faz uma escolha ousada: restringir sua trama principal a apenas dezoito minutos de acontecimentos reais. Do lançamento da bomba ao impacto. A partir disso, o longa se desdobra em alguns pontos de vista interligados que recontam e reinterpretam o mesmo evento. Essa estrutura fragmentada reforça a confusão e o pânico que cercam decisões tomadas em minutos.
Dentro desse formato, o longa se torna um estudo sobre incerteza. Mesmo com toda a estrutura de defesa e inteligência dos Estados Unidos em ação, ninguém realmente sabe de onde veio o ataque. Essa dúvida constante é o coração do filme. O público, assim como os personagens, é deixado em um estado de expectativa, e essa escolha narrativa transforma o longa em uma experiência angustiante.

A introdução é um verdadeiro “pé na porta”. Bigelow nos joga direto no caos, com um início brutal com uma tensão enorme. É uma sequência tão bem construída que parece difícil manter o mesmo impacto ao longo das partes seguintes — e, de fato, o filme sofre um pouco com isso. Embora a estrutura em capítulos funcione conceitualmente, o ritmo decai conforme os acontecimentos se repetem, tornando o terço final menos intenso.
Outro fator que sustenta a força da narrativa é a trilha sonora de Volker Bertelmann. Há ecos claros de seus trabalhos passados. Ele mistura o suspense de Conclave e o tom épico de guerra de Nada de Novo no Front, que inclusive lhe rendeu um Oscar.

No elenco, Rebecca Ferguson, Idris Elba e Gabriel Basso são os pilares emocionais do filme sendo os protagonistas das partes. Ferguson entrega uma performance contida, mas repleta de nervosismo interno. Elba, por outro lado, carrega a figura da autoridade que precisa parecer firme, mesmo sem saber o que está fazendo. E Basso, representando o ponto de vista mais humano e vulnerável, é o elo que ancora a história no medo comum.
O filme, propositalmente, não oferece respostas. Quando chega ao clímax, evita qualquer resolução clara. Não há um vilão definido, nem uma explicação que alivie a tensão. Bigelow entende que o verdadeiro horror da era nuclear está justamente no fato de não existir uma saída satisfatória — apenas escolhas ruins em um tabuleiro geopolítico impossível de vencer.

Com isso, Casa de Dinamite se torna um espelho poderoso de nossos tempos. É um filme sobre medo e impotência — sobre como, mesmo cercados de tecnologia e poder, ainda somos reféns da dúvida. Ainda que sua estrutura e ritmo possam afastar parte do público, a obra cumpre com excelência o propósito de discutir a ansiedade coletiva que paira sobre o mundo moderno.


