O show antes do espetáculo

Depois de quase uma década fora das telas, a franquia Truque de Mestre retorna trazendo de volta o famoso grupo dos Quatro Cavaleiros — agora rodeado de novas peças. O 3º Ato chega com a missão de atualizar o espírito da saga e, ao mesmo tempo, reconectar o público ao charme do ilusionismo que definiu os primeiros filmes. Mesmo com o grande intervalo desde o último capítulo, o filme tenta tirar proveito dessa lacuna para renovar conflitos, tensões e motivações.
Em um movimento que soa como uma “preparação de terreno para o que vem aí”, o roteiro reúne todos os personagens anteriormente apresentados. O salto temporal de dez anos funciona como justificativa narrativa para a reaproximação e para as mudanças internas que cada um traz de volta consigo. Ainda que simples, essa motivação é funcional e direta, permitindo que a história avance com rapidez e abrace o espírito dinâmico e acelerado da franquia.

Esse reencontro também abre espaço para novas problemáticas. Os desentendimentos e egos inflados reacendem a chama competitiva que sempre marcou as interações do grupo. As discussões se tornam momentos de respiro dentro da trama frenética, e, em sua maioria, funcionam. O único tropeço está em alguns diálogos mais frágeis, vítimas de um roteiro que, por vezes, se perde na tentativa de soar espirituoso demais.
A chegada de um novo trio de mágicos poderia facilmente ameaçar o equilíbrio do filme, transformando o elenco em um amontoado de histórias desconexas. Mas, curiosamente, isso não acontece. Graças às personalidades fortes e ao bom timing de comédia dos atores, os novatos se estabelecem rapidamente, equiparando-se ao grupo original e evitando a sensação de “intrusos”.

Quando os oito mágicos trabalham juntos, o filme encontra um ritmo deliciosamente caótico. Há energia, carisma e humor, mesmo que algumas separações de grupo aconteçam claramente para alongar a duração do longa. Ainda assim, o resultado geral é divertido e consistente com a proposta.
Entre os veteranos, os destaques continuam sendo Jesse Eisenberg (Danny) e Woody Harrelson (Merritt), que roubam a cena toda vez que aparecem. Já Isla Fisher, de volta como Henley após sua ausência no segundo filme, entrega uma performance competente, ainda que perca força na metade final. Dave Franco mantém Jack Wilder relevante, mas é quem menos brilha entre os originais. Lizzy Caplan, como Lola, surge como a peça mais engraçada e totalmente alinhada à representação exagerada que a franquia sempre abraçou.

Entre os recém-chegados, Justice Smith (Charlie) é quem se destaca. Ele ganha espaço por motivos narrativos importantes (não falarei spoilers) e o ator responde com muito carisma. Ariana Greenblatt (June) constrói uma personagem cheia de personalidade, apesar de algumas falas bobas. Dominic Sessa (Bosco), no entanto, sofre com o roteiro: sua relação com Danny é soa como um conflito artificial, tornando Bosco um personagem menos envolvente do que poderia ser.
O maior problema está no antagonismo. Rosamund Pike, excelente atriz, recebe uma vilã pouco inspirada, sem propósito claro e com presença limitada. O retorno de Morgan Freeman também decepciona — não por sua atuação, mas por uma cena constrangedora que define o destino de seu personagem e, infelizmente, se torna, para mim, a pior parte do filme.

Na direção, Ruben Fleischer substitui John M. Chu e entrega um trabalho correto e protocolar, mas claramente inferior ao de seu antecessor. Fleischer é eficiente em sequências grandiosas — como o divertido crossover com a Fórmula 1 — mas carece da sofisticação visual e da fluidez e beleza visual de Chu.
Com uma história simples de assalto e uma clara intenção de preparar o terreno para o futuro da franquia, o filme mantém o charme dos anteriores. A criatividade das mágicas, agora mais tecnológicas e ambiciosas, ajuda a modernizar o universo. A mistura de engenhocas, ilusionismo clássico e humor autorreferencial dá nova vida ao grupo.

Um dos grandes momentos do filme ocorre durante uma sequência de mágica em plano-sequência: mais de dez truques executados sem pausa. É a cena que melhor sintetiza o espírito da saga — a celebração dos grandes egos, do showmanship e da ilusão como espetáculo.
Truque de Mestre: O 3º Ato pode não ser o mais sofisticado da franquia, mas mantém vivo o encanto que tornou a série querida, enquanto preara terreno para o quarto filme já confirmado. É uma aventura leve, divertida e cheia de personalidade.


