VALOR SENTIMENTAL | REVIEW

A arte como herança sentimental

Depois da pedrada emocional que foi A Pior Pessoa do Mundo, o cineasta norueguês Joachim Trier retorna com Valor Sentimental, um filme menos explosivo, mas profundo, que reflete sobre criatividade, memória e arte como intermediária em relações familiares quebradas. Aqui, o diretor segue interessado em pessoas, silêncios e afetos mal resolvidos, deixando o drama crescer de maneira delicada.

A trama se estrutura a partir do reencontro de duas irmãs com o pai distante, um diretor de cinema que alcançou fama e prestígio em Hollywood, mas que falhou na vida familiar. Esse retorno não vem apenas carregado de mágoas antigas, mas também de uma proposta incômoda: ele oferece à filha mais distante dele o papel principal em seu novo filme.

O pai justifica sua volta dizendo querer filmar o longa na antiga casa da família, espaço carregado de memórias da infância dele. Quando a filha recusa o papel, ele toma uma decisão simbólica e dolorosa: chamar a maior atriz de Hollywood do momento para interpretar a protagonista.

A partir dessa escolha, o filme passa a acompanhar a relação de todos, ao mesmo tempo em que a filha atriz entende, pouco a pouco, que esse papel só pode ser executado por ela — por conta da identificação emocional.

Curiosamente, apesar de tratar diretamente sobre cinema, Trier evita recorrer à metalinguagem como truque narrativo, algo comum para filmes que abordam o assunto. A indústria está presente — reuniões, busca por financiamento, a eventual entrada da Netflix na produção —, mas nada disso se sobrepõe ao que realmente importa: as relações humanas e seus atravessamentos emocionais.

A sensibilidade do roteiro e da direção se manifesta principalmente no modo como os vínculos são tratados. Muitos conflitos não são verbalizados, mas sentidos. Silêncios, olhares e pequenas reações carregam um peso dramático enorme.

Esse cuidado encontra seu auge no trabalho do elenco. Em sua terceira colaboração com o diretor, Renate Reinsve entrega uma atuação profundamente humana, interpretando a filha distante, atriz, e emocionalmente travada pela relação com o pai. É um trabalho devastador em suas entrelinhas.

Stellan Skarsgård surge como uma força da natureza no papel do cineasta egocêntrico, moldado por uma indústria que inflou seu ego e o afastou da família. Em declínio profissional, seu personagem tenta se entender revisitando a própria infância — e o filme deixa claro que essa obra que ele tenta realizar é, na verdade, um esforço desesperado de autorreflexão.

Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas completam o elenco com atuações cheias de delicadeza, sustentando o tom emocional do filme sem jamais roubar o foco da dinâmica central.

No desenrolar da narrativa, fica evidente que o longa fala menos sobre reconciliação direta e mais sobre entendimento. Aqui, o cinema não resolve os traumas familiares, mas funciona como mediador, como linguagem possível para acessar sentimentos que não encontram palavras.

Os poucos flashbacks presentes são usados com precisão cirúrgica. Quando surgem, ampliam a compreensão sobre a visão das filhas em relação ao pai e funcionam como pistas sutis para a resolução emocional do desfecho.

Este filme, está seleto grupo de produções cuja última cena eleva ainda mais tudo o que veio antes. Um instante de reconexão silenciosa, sustentado apenas por olhares, que resume o poder da arte como ferramenta de compreensão, memória e afeto.

Valor Sentimental não busca respostas fáceis nem soluções definitivas, mas oferece algo talvez mais valioso: empatia, reflexão e a certeza de que a arte pode ser um espaço seguro para revisitar feridas antigas e, quem sabe, compreender quem somos.

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