Consciente demais, cobra de menos

Lançado originalmente em 1997, Anaconda se transformou em um clássico do terror trash, rendendo diversas sequências cada vez mais exageradas e conscientes de sua própria tosquice. Em vez de seguir pelo caminho fácil de um reboot genérico ou de simplesmente repetir a fórmula do original, a Sony decide reinventar, apostando em algo mais autoconsciente e alinhado ao espírito caótico que sempre rondou a franquia.
Anaconda, de 2025, aposta pesado na metalinguagem. A trama acompanha um grupo de amigos que viaja para a Floresta Amazônica, no Brasil, com a ideia de produzir um remake do Anaconda original. A partir desse ponto, o filme deixa claro que não quer ser levado a sério como terror, mas sim como uma comédia que conversa diretamente com a própria indústria do cinema e com o legado do filme que tenta “refazer”.

Essa premissa abre espaço para uma enxurrada de referências à indústria cinematográfica. O roteiro se diverte zombando de reboots desnecessários, decisões de estúdio, modas passageiras e até da forma como o cinema atual lida com nostalgia. Como se trata de uma comédia, esse jogo funciona muito bem, e várias das piadas acertam precisamente.
Esses momentos “meta” são, sem dúvida, os pontos mais altos do filme. Além de serem genuinamente engraçados, eles ganham um impacto extra para quem acompanha de perto os bastidores da indústria. Existe um prazer específico em reconhecer as críticas, os exageros e as alfinetadas, o que torna a experiência especialmente divertida para um público mais cinéfilo.

Por outro lado, quando o filme tenta construir qualquer envolvimento emocional com seus personagens, falha feio. O roteiro insiste em afirmar que se trata de um grupo de amigos de longa data, mas essa conexão nunca é realmente sentida em cena. A amizade é dita, repetida e verbalizada, mas raramente demonstrada de forma orgânica.
Para compensar essa fragilidade, o elenco entrega um trabalho melhor do que o texto merece. Jack Black é um exemplo claro disso. Aqui, ele passa longe da galhofa excessivamente barulhenta e disfuncional que prejudicou Um Filme Minecraft. Mesmo mantendo suas marcas registradas, sua atuação é mais contida e funciona bem dentro do tom proposto.

Paul Rudd faz o que sabe fazer melhor: ser naturalmente carismático e eficiente na comédia, mesmo em um papel que não exige grande esforço. Thandiwe Newton e Steve Zahn completam o grupo com atuações decentes, enquanto Daniela Melchior se destaca ao interpretar uma personagem que esconde o principal twist narrativo do filme, cumprindo bem essa função.
É impossível não destacar a presença de Selton Mello. Interpretando um especialista em cobras claramente chapado, o ator brasileiro rouba completamente a cena sempre que aparece. Seu personagem, com uma vibe estranha e uma relação afetiva com a anaconda, é um dos maiores acertos do filme e rende alguns dos momentos mais memoráveis.

Falando da cobra em si, aqui está o maior problema da produção. No filme original, o animatrônico da anaconda ajudava a manter uma sensação de fisicalidade e ameaça real. Em 2025, a produção aposta em um CGI extremamente falso e feio. A cobra é mal animada, com movimentos artificiais e textura inacabada. Ela passa boa parte do tempo escondida e, quando finalmente aparece, quebra qualquer tentativa de imersão.
No fim, Anaconda se mostra um filme extremamente básico. Funciona bem como comédia de metalinguagem, entrega boas piadas e algumas atuações inspiradas, mas é fraco em todo o resto. Diverte enquanto comenta o próprio cinema, mas falha como narrativa, como terror e principalmente como espetáculo visual.


