FRANKESTEIN | REVIEW

As nossas dores, falhas e a vontade de ser amado

Guillermo del Toro é daqueles cineastas que a gente enxerga de longe. Não só pela estética, mas pelo afeto genuíno que ele tem pelos seres deslocados da ficção. Depois de um suspense criminal mega intrigante em O Beco do Pesadelo e de reinventar um clássico em Pinóquio, ele volta agora ao seu território mais íntimo: monstros. Frankenstein sempre foi um desses símbolos para ele. Então não surpreende que sua nova adaptação da obra de Mary Shelley seja um retorno às origens.

Tecnicamente, esse talvez seja o maior triunfo da carreira de del Toro. Ele e sua equipe constroem um espetáculo minucioso, daqueles em que cada elemento parece ter sido esculpido à mão. E isso levando em conta a enormidade da escala da trama. Paisagens, objetos, figurinos, texturas até uma costura quase invisível na pele do monstro carregam um carinho.

Esse cuidado deixa o filme épico. A ambientação de época é absurda de tão imersiva. Os cenários, os veículos, as roupas, tudo transborda precisão e beleza. Só que nada impressiona tanto quanto a torre onde boa parte da narrativa se desenrola. Um local formado por corredores úmidos, laboratórios claustrofóbicos e detalhes que não nos deixam desgrudar os olhos da tela.

A caracterização da criatura é um feito monumental. Jacob Elordi está irreconhecível sob uma nova pele e feição que é colocada em seu corpo. Isso se destaca ainda mais por conta do distanciamento que o filme escolhe dar em relação aos designs mais conhecidos do monstro.

Na adaptação em si, del Toro mantém o coração do livro. A dor, a solidão, a busca por pertencimento e a ferida do abandono continuam intactas, só que agora embaladas por um roteiro cheio de elegância e sutileza. As relações se constroem com tempo, silêncio e espaço.

Elordi entrega o melhor trabalho da carreira. Além dos obstáculos estéticos que o ator dribla, ele consegue dar uma camada de aprendizado e sensibilidade ao monstro. O monstro nasce como uma criança perdida, se descobre lentamente e depois caminha para a fúria e o desejo de encontrar seu criador. Nos gestos tortos, no caminhar incerto, nos olhos perdidos e nos braços desengonçados, ele encontra uma humanidade comovente. Nada fica caricato, porque tudo nasce do detalhe.

E essa performance ganha ainda mais peso quando você lembra que Elordi substituiu Andrew Garfield, que vinha se preparando por mais de um ano. Elordi teve semanas, e entregou isso. É daquelas histórias que fazem a gente pensar que alguns papéis realmente escolhem seus atores.

Del Toro também recupera com precisão o brilho mais doloroso do livro: nos fazer amar a criatura de imediato. É um ser trágico que não pediu para nascer, não pediu aquele corpo, aquela dor, aquela solidão. Ele só queria existir sem ser odiado e não estar sozinho. O diretor nos dá tempo para conhecê-lo, e isso muda completamente a relação emocional com a história.

No momento da narrativa em que o monstro se afasta do criador, Victor Frankenstein, e parte para sua própria jornada, é que o filme mais nos cativa. A convivência com o idoso cego, o único personagem capaz de entendê-lo além da aparência, é lindíssima. São momentos de comunicação, leveza e descoberta que colocam o longa no seu ponto mais sensível.

Assim como Shelley fez em 1818, ao criar uma história perfeita, del Toro usa a trama para falar de trauma. Não de um jeito óbvio, mas com muito cuidado. Ele mostra como trauma pode virar medo, raiva, silêncio E a partir da jornada que acompanhamos do monstro, entendemos que depois de lidar com o trauma, surge o amor, e novamente, assumindo diversas formas: linguagem, toque, atenção e bondade. É por isso que o roteiro parece tão sutil.

Oscar Isaac vive um Victor Frankenstein fiel ao espírito do livro. Ele é brilhante, sim, mas também um homem desprezível, egoísta e cruel. O ator desliza entre o fascínio científico e a angústia moral de alguém que criou algo que não pode controlar. No final, quando o perdão e o amor entram em cena, Isaac acerta precisamente no desalento e na dor.

Mia Goth está bem, fugindo de papéis mais extremos que costuma interpretar. Mas sua personagem é a parte mais frágil do filme, aparecendo mais como ponte narrativa do que como alguém plenamente desenvolvido, uma vez que suas ações e sentimentos simplesmente acontecem. Christoph Waltz e Félix Kammerer, por outro lado, surgem sólidos em seus papéis como importantes coadjuvantes que circundam a vida de Victor.

O filme inteiro funciona exatamente como o cineasta planejou. Uma declaração de amor aos monstros. Aqui, ele, mais do que nunca, aproxima a humanidade e o sentimento a esses seres deslocados. Nas nossas dores, nas nossas falhas e na nossa vontade de amar ou ser amado. Frankenstein, nas mãos de Del Toro, é uma síntese perfeita de tudo que ele acredita sobre monstros. Beleza, tragédia, horror e sentimento.

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