Reduzindo o rebanho

A segunda temporada de Gen V começa um pouco irregular. Há a tarefa de “arrumar a casa” após o trágico falecimento do ator Chance Perdomo, que interpretava o personagem Andre Anderson, e o seriado faz isso com respeito, trazendo justificativas plausíveis para a ausência.
Mas mesmo assim isso não impede que o primeiro episódio fique meio morno. A partir dali, porém, a temporada engrena e entrega um mistério bem intrigante, e nos apresenta um antagonista que, surpreendentemente, consegue rivalizar com Capitão Pátria (o grande vilão da série mãe, The Boys). Eu achava que isso era impossível, mas me rendi.
O ator Hamish Linklater está ótimo como Cipher, ele incorpora muito bem esse vilão frio e calculista. Depois temos o personagem Thomas Godolkin (interpretado por Ethan Slater) que, de fato, também entrega. Mas pra mim o destaque maior continua sendo Linklater, ele está sempre presente, é uma presença excelente e é prazeroso acompanhar, mesmo sendo “do mal” em certa medida ou, melhor dizendo, em fronteira moral nebulosa. Parte do que funciona é justamente o fato de não sabermos exatamente quais são as intenções dele, fica turvo, e isso rende.

O elenco jovem também segue forte: o grupo de estudantes tem química, e o arco de Marie, que está cada vez mais percebendo que pode ser “a escolhida”, é bem conduzido. Ela continua centrada, não deixa a posição de protagonista moer sua personalidade, o que me cativou. Também gostei bastante da personagem Emma que ganha mais destaque aqui.
Agora, os pontos negativos: a falta de Andre/Chance se faz muito sentir, e justamente isso acarreta um problema que me incomodou no final da série: a repetição excessiva do tema da ausência dele. Eu entendo completamente a dor da produção e o tributo é digno; porém, o tema fica martelado até o último episódio, ao ponto de cansar. Nos primeiros episódios dá pra “sentir” o luto, faz sentido; lá pro fim, já parecia cena automática, menos emoção genuína, mais ritual, e isso acaba virando negativo.

Também fiquei com dúvidas quanto à decisão de trazer de volta o ambiente da faculdade. No começo fiquei meio desconfiado, mas no final achei que conseguiram justificar bem. Ainda assim, acho que talvez esse campus universitário já tenha cumprido sua função e que para a próxima temporada poderia haver uma mudança de cenário.
Sobre o desfecho: gostei das decisões tomadas até quase o fim, mas achei que o corte no personagem Godolkin foi prematuro. Esperava que ele durasse mais temporadas, por causa dos planos da Mana Sábia, etc., mas ele foi eliminado rápido, achei um desperdício. O final em si me deixou um pouco “sem sal”, boas ideias, boas intenções, mas faltou algo que realmente fizesse “boom”.

Uma última reflexão: achei muito interessante o papel de Thomas Godolkin como metáfora ou resposta ao que esse universo virou. Ele defende a ideia de que os poderes servem para criar deuses, não aberrações de circo. E, vendo como nos últimos tempos vemos muitos supers nesse universo com poderes cada vez mais esquisitos ou abusivos, ele aparece como um manifesto interno da série: “vamos elevar o nível”, “vamos limpar esse circo”. Achei essa leitura bem rica e dá mais camadas à temporada. Vamos ver se isso reverberará na próxima temporada da The Boys ou se vai se esvair com ele.
No geral? Gostei. Uma temporada sangrenta, que entrega, após um começo meio instável, bastante valor. Vale a pena.


