Como uma partida que nos envolve e não perde o ritmo

Marty Supreme marca um momento importante na carreira de Josh Safdie. Pela primeira vez dirigindo sem o irmão, o cineasta assume também o desafio de comandar o filme mais caro da história da A24. O resultado é uma obra que com o espírito caótico associado aos irmãos Safdie, mas agora aplicado a uma estrutura mais ambiciosa e épica, misturando esporte e obsessão.
Desde os primeiros minutos, o longa nos apresenta a Marty Mouser, um protagonista movido por uma necessidade de vencer. A narrativa não se preocupa em suavizar suas atitudes ou torná-lo simpático. Pelo contrário: tudo é excessivo, impulsivo ou barulhento, fazendo com que o sentimento de caos cresça junto com suas ambições.

O filme costura uma quantidade impressionante de elementos. Golpes, roubos, romances, competições esportivas e esquemas paralelos surgem como partes de um mesmo tabuleiro. Essa mistura constante cria uma sensação de épico moderno, reforçada pela montagem afiada, que nunca deixa o filme perder ritmo.
A ambientação pós-Segunda Guerra Mundial não é apenas estética. O roteiro usa o período histórico como peça narrativa essencial, especialmente ao trabalhar a rivalidade com o Japão. O país surge não só como antagonista esportivo, mas no meio de uma busca por reconstrução de imagem.

Esses conflitos ganham peso visual quando combinados com cenários grandiosos. Estádios lotados e hotéis luxuosos ampliam a sensação de grandeza que o filme busca o tempo inteiro. Tudo é gigante, refletindo o ego inflado e a ambição sem limites de Marty.
Mesmo sendo um filme sobre tênis de mesa, o esporte nunca é tratado como o verdadeiro centro da narrativa. Ele funciona como uma obsessão, um objeto de desejo, não como um fim. Há menos partidas do que o espectador espera, mas cada uma delas é longa, intensa e absolutamente funcional dentro da lógica do filme. Todas como parte da brilhante direção de Josh Safdie.

Narrativamente, o longa é extremamente competente em fazer valer cada detalhe plantado ao longo da história. Pequenas escolhas, atitudes aparentemente irrelevantes e decisões impulsivas do protagonista se acumulam até que, naturalmente, o efeito dominó se estabelece e tudo começa a ruir.
Curiosamente, essa queda não depende de um clímax esportivo tradicional. Não há um grande jogo final que resolve tudo. O que envolve o espectador é o colapso emocional e moral de Marty, engolido pelo próprio caos que construiu.

Timothée Chalamet entrega uma das performances mais brilhantes de sua jovem, porém espetacular carreira. Ele interpreta Marty como alguém profundamente desagradável, egoísta e manipulador, mas o faz com humanidade suficiente para nos confundir. Em certos momentos, torcemos por ele, mas em outros, sentimos repulsa.
O elenco de apoio ajuda a sustentar essa montanha-russa de sensações e sentimentos. Odessa A’zion brilha em um papel pequeno, porém exigente, equilibrando força e vulnerabilidade. Gwyneth Paltrow traz elegância e controle a uma personagem curiosa que serve como motivo de atenção de Marty. Tyler, the Creator e Kevin O’Leary surpreendem com atuações que soam como verdadeiras aventuras pessoais, mas que funcionam perfeitamente.

Tecnicamente, o filme é impecável, mas o maior destaque vai para a trilha sonora de Daniel Lopatin. O techno retrô não apenas acompanha a narrativa, como dita o estado emocional do espectador, especialmente durante as partidas. Nos momentos de silêncio e introspecção, a trilha mostra uma sensibilidade igualmente poderosa. Essa experiência sonora é enriquecida pela escolha criteriosa de músicas dos anos 80. As canções surgem como camadas adicionais de ritmo.
Recriar a Nova York da década de 50 exigia um trabalho técnico cuidadoso, e o filme entrega isso com excelência. Design de produção, figurino e fotografia trabalham em perfeita sintonia para manter o espectador completamente imerso no caos elegante que Marty cria ao seu redor.

Marty Supreme é menos sobre esporte e mais sobre obsessão, ego e autossabotagem. Josh Safdie apresenta uma narrativa grandiosa, abraçando o excesso. Como uma partida longa, intensa e imprevisível, o filme prende e, ao final, deixa aquela ótima sensação um ótimo caos de se acompanhar — igual ao protagonista.


