Uma sequência que muda de gênero

Depois de nove anos, Ben Affleck retorna a um de seus papéis mais diferentes em O Contador 2, sequência do filme de investigação que, em 2016, foi o mais alugado nas plataformas digitais dos EUA.
Inicialmente, esse novo longa se afasta bastante da proposta de seu antecessor. Se o primeiro filme mergulhava mais no suspense investigativo, construindo lentamente o mistério em torno do protagonista Christian Wolff (Affleck), aqui a narrativa se entrega de vez à ação.
Algo de bom que essa mudança trouxe, foi a dinâmica de Christian com seu irmão Braxton, interpretado por Jon Bernthal. A relação dos dois, antes era marcada por tensão e mágoa, agora evolui para algo mais leve e divertido durante boa parte do longa. Esses momentos em que os dois estão juntos são revigorantes e um respiro natural para a trama, que muda de ritmo a todo tempo. J. K. Simmons retorna para uma participação curta que, literalmente, da o start para a história. Felizmente, esse pouco tempo em tela, o deixa ter uma cena de luta bem bruta e empolgante. Cynthia Addai-Robinson ganha mais tempo de tela, mas sua personagem é vítima do roteiro que a coloca como contraponto aos ótimos irmãos.

Apesar da ação eletrizante, muito bem comandada pelo diretor Gavin O’Connor, senti falta de uma exploração mais profunda da parte investigativa, que foi um dos grandes diferenciais do primeiro longa. Aqui, optaram por seguir um caminho mais direto, com motivações simples, o que levou a facilitações de roteiro que chegam a incomodar em algumas horas. Em seu terço final, o filme mergulha de vez na ação com um encerramento que pouco importa a coerência, mas que ainda assim nos gera tiroteios e lutas eletrizantes.
Christian Wolff é um dos poucos protagonistas de ação que vive no espectro autista, e aqui, é tratado da forma certa, mostrando tanto as dificuldades quanto as habilidades do personagem. Isso é mostrado inclusive por meio de uma incrível cena em que ele se deixa levar por uma dança e um amor à primeira vista. Na produção original de 2016, já havia sido estabelecido um local onde jovens autistas viviam em conjunto, mas é muito interessante ver o que eles fizeram com o local na nova história situada oito anos depois. O lugar virou um tipo de Escola Xavier, dos X-Men, mas para esses jovens. A dinâmica que isso traz é bem original, mas infelizmente, também é de onde vem boa parte das facilitações de narrativa.
Ao focar mais na ação e no relacionamento entre os irmãos, o filme ganha um ritmo mais ágil e entrega uma experiência mais leve e divertida, ainda que menos profunda. Ainda que a mudança de gênero possa desagradar quem gostou do jeito investigativo e cerebral do primeiro filme, “O Contador 2” se sustenta muito bem em seu novo estilo. Inclusive, acredito que visando uma continuação ou derivado.