Uma releitura que foca no desejo e no visual

Desde seus primeiros minutos, “O Morro dos Ventos Uivantes” (2026), dirigido por Emerald Fennell, deixa claro que não está interessado em reverenciar o clássico homônimo de Emily Brontë de forma tradicional. Ao contrário, a cineasta assume o risco de reinterpretar uma das obras mais celebradas da literatura inglesa e mundial sob uma lente autoral, estilizada e, acima de tudo, provocativa.
Fennell, que assina direção e roteiro, parece movida por um único impulso: transformar a tragédia romântica em um espetáculo sensorial. Ao optar por focar exclusivamente na relação obsessiva entre Catherine Earnshaw e Heathcliff, a diretora elimina subtramas e personagens — incluindo os filhos, elemento central no romance original. Essa decisão, embora controversa, reforça a ideia de que estamos diante de uma releitura e não de uma tradução fiel.

Levando em conta essas exclusões, é preciso reconhecer que Fennell executa com convicção aquilo que se propõe. O filme é visualmente deslumbrante, com enquadramentos que são uma extensão da turbulência emocional dos protagonistas. Cada plano parece calculado para “seduzir” o espectador.
Outro ponto que diferencia esta versão é o acentuado teor de tensão sexual. Fennell intensifica o desejo latente entre Catherine e Heathcliff. Há sensualidade constante, mas nunca é vulgar. A diretora entende que o impacto nasce da sugestão, não da exposição gratuita.

Esse equilíbrio é crucial. Se ultrapassasse a linha da vulgaridade, o filme poderia cair na armadilha do fetichismo autoral ou soar como provocação vazia, além de receber comparações inevitáveis com Cinquenta Tons de Cinza e outros. Em vez disso, a tensão sexual serve como combustível dramático, ampliando a natureza tóxica da relação.
Grande parte desse sucesso se deve à presença magnética de Margot Robbie como Catherine. Em seu retorno às telonas após Barbie, Robbie entrega uma performance que equilibra fragilidade e perversidade emocional. Sua Catherine começa inocente, e progressivamente se torna consumida por uma paixão que beira o autodestrutivo.

Ao seu lado, Jacob Elordi constrói um Heathcliff intenso e inquietante. Polêmicas à parte, o ator mergulha na violência emocional do personagem, explorando um lado abusivo que se manifesta tanto no desejo quanto na vingança. Sem o peso do conflito racial presente no livro, este Heathcliff se define mais pelo ressentimento social e pela obsessão do que por marginalização étnica.
Os primeiros vinte minutos ficam nas mãos de Owen Cooper e Charlotte Mellington, que interpretam as versões jovens dos protagonistas. São eles que estabelecem a inocência inicial, necessária para que o espectador compreenda a degradação posterior.

Sobre a controvérsia envolvendo a escalação de Elordi, a ausência do componente racial que marca o Heathcliff literário é, sem dúvida, uma decisão deliberada. Em vez de tentar contornar essa camada complexa, Fennell simplesmente a remove do centro da narrativa. Pode-se interpretar essa escolha como omissão ou como clareza temática: ela queria falar sobre desejo e poder, não sobre raça e exclusão.
O uso de aspas na campanha de marketing do título faz ainda mais sentido nesse contexto. Este não é exatamente O Morro dos Ventos Uivantes — é uma leitura pessoal, da essência da história. Ao abandonar a estrutura geracional e concentrar-se no romance central, o filme evita a rigidez do melodrama clássico e aposta na intensidade concentrada.

Ainda assim, a toxicidade que consagrou o romance permanece intacta. A estranheza dos personagens, sua incapacidade de amar sem destruir, funciona como a espinha dorsal do longa. A diferença é que aqui tudo parece mais estilizado, mais consciente de sua própria estética.
Tecnicamente, o filme impressiona. A direção de Fennell é segura, especialmente na construção visual. Mas é o design de produção que realmente se destaca. As casas, os ambientes internos e os detalhes de decoração extrapolam a simples reconstituição histórica, e se unem com o estado emocional dos personagens.

O figurino acompanha essa proposta com precisão. O contraste entre os tons vibrantes dos cenários e as cores igualmente expressivas das roupas cria uma harmonia visual ousada. Ainda assim, nada parece destoar.
Na trilha sonora, as composições de Charli XCX funcionam melhor inseridas no filme do que isoladamente. Há um estranhamento sonoro que, fora de contexto, pode parecer pouco agradável, mas dentro da atmosfera construída, acentua o desconforto e a modernidade da proposta.

No fim das contas, o longa deixa de ser uma adaptação para se afirmar como releitura. Ele não busca substituir o romance de Brontë, mas dialogar com ele a partir de outra leitura — mais visual, mais corporal, mais contemporânea. Ao abrir mão de fidelidade estrutural, ganha liberdade estética.
“O Morro dos Ventos Uivantes”, como obra cinematográfica, é um trabalho tecnicamente sofisticado, sustentado por atuações intensas e uma direção visual marcante. Pode frustrar puristas da literatura, mas encontra força em sua ousadia. Não é a história que atravessou séculos, mas é uma versão que entende e explora o poder da imagem e do desejo como motores de uma trama de relacionamento intensa.


