Um melodrama que esquece de respirar

Se Não Fosse Você é, depois de É Assim Que Acaba (2023), mais uma adaptação de obras literárias da autora Colleen Hoover que ainda deve render pelo menos mais três filmes até o próximo ano. Mas, infelizmente, essa nova adaptação tem dificuldade em sustentar o peso das emoções que propõe.
O roteiro é o primeiro obstáculo. A escrita dos diálogos é fraca e, em diversos momentos, chega a ser boba. As falas parecem saídas de um drama adolescente apressado e básico, o que prejudica o trabalho do elenco. Um tipo de texto que tenta soar intenso, mas acaba caindo na superficialidade, transformando momentos sérios e dramáticos em situações nada empáticas.

Narrativamente, o filme se vende como uma grande história sobre tragédias, traições e reconciliações. No entanto, o que se vê é um drama cheio de briguinhas, idas e vindas e clichês emocionais previsíveis. As problemáticas que unem e separam os personagens até têm potencial, mas o longa nunca se permite respirar.
A trama abre com um tom mais denso, explorando um acontecimento trágico e uma sequência de traições que prendem a atenção. Há um clima de tensão e stranhamento que poderia render um ótimo melodrama. Mas logo tudo se perde em um mar de discussões e reconciliações forçadas, onde cada nova briga soa mais como repetição do que evolução dos personagens.

A direção de Josh Boone tenta dar camadas ao drama, mas aqui parece refém de um roteiro que não lhe dá muito o que explorar. Apesar disso, é possível ver um esforço visual para tornar o filme bonito e melancólico, ainda que o conteúdo não acompanhe essa estética.
O ritmo é irregular com a montagem agravando o problema de repetições. As cenas de grande impacto emocional são finalizadas bruscamente, enquanto outras se estendem sem necessidade. Isso dá uma sensação de desorganização narrativa, o que enfraquece a imersão e faz o público se distanciar dos personagens.
Para aliviar o excesso de brigas, o filme aposta em momentos “fofos”. São cenas de romance açucarado, trilha sonora leve – que apela para hits modernos – e sorrisos forçados. Em alguns casos, essas pausas trazem respiro e cumprem o papel de lembrar que ainda há uma calmaria e ternura em meio ao caos. Mas na maioria das vezes, soam forçadas — como se o longa tivesse medo de deixar o espectador realmente triste.

Felizmente, o elenco faz milagre. Mason Thames e Mckenna Grace têm uma química palpável, reflexo da relação real (namoro) que existe entre os dois. Juntos, entregam os momentos mais sinceros do filme. Quando estão em cena, há uma naturalidade que falta no resto da narrativa. Mckenna, em especial, consegue dar profundidade a diálogos frágeis, apenas com olhar e gestos.
Allison Williams e Dave Franco também se destacam, apesar das limitações. Ambos recebem os arcos mais sombrios e dramáticos, e lidam bem com isso. São eles que sustentam a parte mais adulta da trama, ainda que o texto não os ajude muito. Scott Eastwood e Willa Fitzgerald, por sua vez, têm participações menores, mas importantes. Suas presenças no início do filme criam percepções sobre seus personagens que ganham novo sentido em uma virada narrativa interessante mais à frente.

Mesmo com tantas falhas estruturais, Se Não Fosse Você tenta entregar um romance doloroso sobre perdão e segundas chances. O problema é que, ao tentar abraçar tantos conflitos, o filme acaba sem desenvolver nenhum com real profundidade. É bonito de ver, mas raso de sentir. Ainda assim, pode agradar aos fãs da autora e do gênero, que encontrarão aqui um mergulho no amor turbulento e imperfeito – que chega até ser estranho nesse caso.


