STRANGER THINGS – 5ª TEMPORADA | REVIEW

O final que os personagens precisavam e mereciam

Desde sua estreia, em 2016, Stranger Things se apresentou como aquelas séries raras que não apenas fazem sucesso, mas marcam um período e uma geração inteira. Muito disso se deve ao trabalho sensível de Matt e Ross Duffer, que desde o início souberam como nos conectar com cada personagem de maneira simples, orgânica e humana. Essa relação foi sendo construída temporada após temporada, atravessando altos e baixos inevitáveis, mas sempre sustentada por um saldo amplamente positivo.

Quase dez anos depois, a quinta e última temporada chega com a difícil missão de encerrar essa história. E faz isso de forma grandiosa, emocional e extremamente consciente do que a série sempre foi. Mais do que responder mistérios, o final funciona como um espelho, com temas como amizade, família, pertencimento e a dor inevitável de crescer e seguir em frente.

Inicialmente marcada pela estratégia da Netflix de dividir a temporada em três partes, a conclusão mantém uma coerência admirável ao equilibrar uma mitologia rica e expansiva com seus temas mais íntimos. As ameaças continuam importantes, mas nunca se sobrepõem às relações, que seguem sendo o verdadeiro coração da narrativa.

Isso fica ainda mais evidente no episódio final. Com duas horas de duração e inúmeros pontos a serem amarrados, a escolha de colocar os personagens no centro da trama é muito sensível. É claro que há decisões discutíveis, diálogos que podem soar estranhos e arcos que nem sempre agradam, mas nada disso diminui a força da evolução individual de cada um.

Falando da temporada como um todo, o Volume 1 funciona como um retorno sólido e confiante. A adaptação ao salto temporal é feita com naturalidade, e os momentos épicos surgem de forma constante. Já o polêmico Volume 2 é mais irregular: começa excelente, sofre com um sexto episódio que serve quase exclusivamente para executar um retorno específico e, junto do sétimo, funciona mais como preparação extensa e enrolada para o final.

Com isso, a pressão sobre o desfecho era gigantesca. Vivemos em uma era dominada por redes sociais, opiniões rápidas e julgamentos rasos. E, pessoalmente, embora eu tenha várias críticas ao Volume 2, percebi como a forma de consumo atual muitas vezes impede uma análise mais profunda e honesta das obras, deixando as pessoas sem opiniões particulares e com argumentos.

Na última semana, era impossível escapar de comentários como: “nossa, certeza de que vão matar ninguém”, “que roteiro ruim, parece diálogo do mundo real”, “o Will se assumindo para todo mundo é tão brega”. Frases reais, retiradas de redes sociais, que quase nunca se aprofundavam na função narrativa desses momentos, ou sequer questionavam se determinadas escolhas faziam sentido dentro da história construída ao longo de uma década.

Essa discussão sobre mortes se tornou uma das minhas maiores reflexões sobre a temporada. Game of Thrones, uma das séries da minha vida, provou que personagens principais podem morrer. Mas também mostrou — especialmente em suas últimas temporadas — que mortes sem peso narrativo são tão criticadas quanto a ausência delas. Matar por chocar nunca foi sinônimo de boa escrita.

E foi justamente aí que o episódio final de Stranger Things me conquistou por completo. O fato de ninguém do elenco principal morrer não soa como covardia, mas como coerência. Esse era o final que a série precisava. O epílogo de mais de 40 minutos entrega algo raro: conclusão emocional com um desfecho que espelha o início da obra.

As crianças se formando na escola, os jovens adultos se conectando mesmo com cada um seguindo sua vida, um belo pedido de casamento e, por fim, a impecável cena final do jogo de Dungeons & Dragons. Um encerramento que ecoa o início da série de forma quase perfeita. E faz isso, depois de um fim absolutamente épico da trama principal. Vamos para ele.

Com muitas coisas a serem resolvidas, o episódio final se propõe desde o início, um ritmo veloz. A montagem intercala resolução de conflitos com momentos de diálogos nostálgicos e reflexivos. Enquanto um arco avança, outro respira. Depois, essa dinâmica se inverte. É uma construção pensada para dar espaço a todos os personagens.

Tecnicamente, este é o auge absoluto da série. Mesmo com uma escala imensa, é perceptível a maior atenção dos Irmãos Duffer e da Netflix aqui. Desde uma melhora nos efeitos, passando para a direção que dá mais amplitude ao Mundo Invertido e ao Abismo, até a trilha sonora. Inclusive, que trilha sonora impecável – escutando enquanto escrevo isso.

Dentro desse contexto, algo que reforça ainda mais a discussão sobre mortes é o impacto emocional do final. Sem recorrer a funerais ou perdas gratuitas, a série entrega um desfecho muito mais tocante, reflexivo e duradouro. A construção do epílogo é algo que, pessoalmente, ficará comigo por muito tempo.

SPOILERS A SEGUIR

É impossível não começar falando de Will Byers, interpretado por Noah Schnapp, o verdadeiro ponto de partida de toda a série. Seria muito fácil reduzir sua trajetória nesta temporada apenas ao fato de ele ter se assumido gay. Felizmente, o roteiro vai além disso. Apesar de alguns deslizes de atuação, Will assume o papel de alguém que enfrenta seus medos mais profundos e encontra força justamente naquilo que sempre o fez sofrer.

Jamie Campbell Bower é outro destaque incontestável. Desde a quarta temporada, Vecna se consolidou como um dos grandes vilões da cultura pop recente. Aqui, o ator volta a brilhar com as diferentes facetas do mesmo personagem: Henry, 001 e agora uma nova persona, o Sr. Fulano. Mesmo com o Devorador de Mentes assumindo o posto de antagonista final, o impacto de Vecna permanece intacto.

Millie Bobby Brown como Onze é, certamente, um dos pontos baixos da temporada. Ela é escanteada em alguns momentos, e sua atuação oscila bastante. Ainda assim, o roteiro compensa ao ceder a personagem momentos dignos de uma heroína desenvolvida ao longo de outras quatro temporadas. E o seu final é uma união e espelho ao começo, quando ela surgiu em Hawkins, teve uma jornada com Hopper (David Harbour) enquanto entendia o mundo, as pessoas e amadurecia. Não atoa isso é dito pela própria personagem.

Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin) têm seus momentos bem distribuídos em meio aos muitos aspectos dessa resolução final da série. A exigência emocional é grande, e todos entregam bons trabalhos, com destaque para Wolfhard no episódio final, especialmente em cenas mais introspectivas.

Durante muito tempo, fui crítico ao protagonismo crescente de Nancy Wheeler (Natalia Dyer). Nesta temporada, o arco envolvendo Max (Sadie Sink) e Holly Wheeler (Nell Fisher) só reforçou isso… até o episódio final. O reencontro das irmãs fechou um ciclo que reconheço não ter compreendido antes. Quanto a Max, embora seu retorno tenha poucas consequências práticas, consigo relevar pelo encerramento emocional que ela tem ao lado dos amigos.   

O bom de ter um elenco mai velho mistura com, o que na trama, são crianças, é que esses personagens proporcionam ótimos momento de diálogo para a maioria do público alvo da série. Ao lado de Nancy, Jonathan (Charlie Heaton), Steve (Joe Keery) e Robin (Maya Hawke) proporcionam os melhores momentos – entre os de diálogo – do Volume 2. São jovens com mais personalidades e discussões um pouco mais profundas do que o outro grupo de amigos. Isso traz um certo equilíbrio para muito do que a trama quer desenvolver.

Poucas tramas e personagens realmente falham na temporada, mas o arco dos militares, liderado por Linda Hamilton, merece menção. Apesar de funcionar como obstáculo em alguns momentos, termina de forma apática, quase irrelevante para o conjunto.

FIM DOS SPOILERS

No geral, todos os personagens receberam finais satisfatórios, especialmente quando se entende que esse sempre foi o destino da série. Desde o começo, a produçãofalava sobre ciclos, crescimento e despedidas. Séries que marcam gerações precisam terminar assim: fechando um capítulo sem apagar seu impacto e forças grandes acontecimentos inúteis.

A conclusão de Stranger Things não é perfeita, mas é profundamente honesta. Um final que respeita seus personagens, seu público e sua própria história. Em um cenário saturado de decisões feitas para chcoar, optar pela coerência emocional é um ato de coragem.

No fim, se despede como começou: valorizando a amizade e o poder das conexões humanas em meio a intensa e rica mitologia de fantasia. Foi exatamente esse o final que os personagens precisávamos e merecíamos. Nunca foi e nunca será sobre mim, você ou nós, mas sim sobre a arte de contar uma história.

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