Fiel demais para seu próprio… mal

O primeiro Wicked, lançado no ano passado, reacendeu ao público a magia da terra de Oz ao adaptar o aclamado musical para o cinema. Com visuais encantadores, músicas impactantes, atuações monumentais e uma narrativa emocionalmente rica, o longa consolidou seu espaço como um dos melhores musicais dos últimos anos. Ele equilibrou espetáculo e coração, construindo uma nova perspectiva sobre os eventos clássicos de O Mágico de Oz.
Entretanto, junto com o sucesso veio uma decisão controversa: dividir a história em dois filmes, repetindo a divisão do musical original. E é justamente essa escolha que se torna a grande vilã de Wicked: Parte II, gerando uma série de problemas estruturais que afetam ritmo, desenvolvimento emocional e fluidez.

A transição entre um filme e outro é abrupta. A passagem de tempo é explicada às pressas durante a intro do estúdio, em uma narração que tenta nos situar sem contextualizar nada. A posição de cada personagem após os últimos eventos é apenas jogada na tela, sem cuidado, sem diálogos que retomem suas motivações e sem qualquer número musical que ajude a nos reinserir no mundo. O resultado imediato é uma sensação de confusão e desconexão.
Um dos problemas do primeiro filme era sua demora em engrenar, e infelizmente isso retorna, mas aqui, numa escala maior. Parte II leva muito tempo para achar seu ritmo. Na tentativa de esticar um material que não comporta dois filmes completos, o longa se enche de trechos arrastados, passagens redundantes e momentos que parecem existir apenas para preencher uma duração pré-definida.

Diversas cenas soam como enchimento, especialmente alguns números musicais. Há músicas longas demais, outras curtas demais, e muitas que ficam visualmente pobres. Além disso, boa parte delas abandona o estilo marcante do primeiro filme para virar algo mais próximo de diálogos cantados.
Ainda assim, nem tudo é um desastre. John M. Chu, mesmo com as limitações da estrutura, reafirma seu talento para criar construções visuais espetaculares. Os cenários de Oz continuam belíssimos, grandiosos, palpáveis, feitos com uma mescla primorosa entre efeitos práticos e digitais. Figurinos e design de produção permanecem impecáveis, e sustentam boa parte do encanto deste segundo capítulo.

Outro ponto fortíssimo está em Glinda. Wicked: Parte II é, em essência, um filme dela, e Ariana Grande entrega a melhor performance da carreira, acima do longa anterior. Seu domínio de tela é absoluto. A atriz transita por vulnerabilidade, desespero, humor e força com naturalidade impressionante. Além disso, seu alcance vocal é muito bem aproveitado, diferentemente do anterior.

Cynthia Erivo, mesmo com menos tempo de tela, continua sendo o coração dramático do musical. Sua Elphaba é construída em detalhes como os olhares carregados, postura tensa, expressões que traduzem fúria, amor e dor. Ela sustenta a profundidade da personagem original e mantém o nível de excelência do primeiro filme.
Jonathan Bailey, interpretando Fiyero, possui aqui um brilho consideravelmente menor. A trama o deixa mais à margem, e suas motivações acabam parecendo artificiais, especialmente quando comparadas ao desenvolvimento mais consistente de outros personagens. Sua transformação é confusa, e pior: mal aproveitada.

Jeff Goldblum e Michelle Yeoh, apesar de serem grandes atores, infelizmente são os pontos mais fracos do elenco. Não têm impacto nos musicais, suas interpretações são desbalanceadas e seus personagens não ganham desenvolvimento suficiente. Goldblum cria um Oz exagerado demais, enquanto Yeoh tem uma Morrible presente, mas rasa, e nunca compreendemos suas reais motivações.
A mudança na história de Nessa é, sem dúvida, um dos erros mais graves do filme. A personagem, originalmente motivada por amargura e desejo de autonomia física, é alterada para se adequar à atriz Marissa Bode, que é cadeirante. Ao invés de andar, ela quer voar. No entanto, tentativa de “lacração” acaba desfigurando completamente sua trajetória. A mudança não acrescenta profundidade dramática, não se conecta ao arco da personagem e soa simplesmente forçada.

Para piorar, a narrativa depende excessivamente do conhecimento prévio de O Mágico de Oz. O filme não explica eventos ou consequências importantes e apenas assume que você sabe. Quem nunca viu o longa original corre grande risco de ficar completamente perdido. E mesmo quem viu pode sentir falta de uma costura melhor entre as histórias, já que o filme escolhe não mostrar nada. Nem se quer, o rosto de Dorothy.
No fim, o longa herda uma base narrativa naturalmente mais fraca. A divisão em dois filmes prejudica profundamente a fluidez da história, e o material estendido torna o ritmo cansativo. Ainda assim, existem brilhos individuais fortes o suficiente para que a experiência não seja um desastre absoluto.

Wicked: Parte II tem momentos belos, atuações inspiradas e um design de produção extraordinário, mas tropeça onde mais importa: na execução da narrativa e no ritmo. Não alcança a magia do primeiro, e nem parecia ter fôlego para existir isoladamente.


