Dobro da aposta e evolução da insanidade

Extermínio: O Templo de Ossos chega como uma sequência direta de Extermínio: A Evolução, lançado há apenas seis meses, e deixa claro desde o início que seu papel é o de transição. O longa dá continuidade ao universo que começou em Extermínio e Extermínio 2, agora já ambientada após 28 anos, preparando terreno para algo maior que será plenamente desenvolvido no quinto filme da franquia.
A principal mudança vem na direção. Nia DaCosta assume o posto antes ocupado por Danny Boyle e imprime uma urgência completamente diferente ao universo da franquia. Seu filme é menos interessado em set pieces de ação e muito mais focado em um terror violento, opressivo e desconfortável, invertendo a lógica de A Evolução, que se aproximava mais de um filme de ação com elementos de horror.

Alex Garland retorna ao roteiro e se permite ir ainda mais longe. O texto é recheado de ideias absurdas, quase imprudentes, que poderiam facilmente implodir a narrativa. No entanto, a execução dessas loucuras é surpreendentemente envolvente, transformando a experiência em algo tão estranho quanto hipnótico.
Isso não impede que o filme sofra com momentos de evidente enrolação narrativa. Algumas cenas parecem existir apenas para cumprir uma duração pré-determinada, ainda que tragam pequenas variações visuais ou conceituais. São poucos os momentos, nesses trechos, que realmente impulsionam a trama principal.

Depois de um primeiro ato marcado por caos e estranheza, o filme encontra, em seus minutos finais, um caminho inesperado ao mergulhar em um debate semirreligioso inquietante, que funciona como uma ponte temática para o próximo capítulo da franquia.
Essa discussão nasce diretamente da controversa cena final de Extermínio: A Evolução, quando Jimmy e sua gangue salvam Spike. Aqui, descobrimos que Jimmy se tornou o centro de um culto demoníaco, atuando como um líder carismático que convence seus seguidores de que eles são os “dedos” de seu pai, o diabo.

Alfie Williams retorna como Spike e novamente entrega uma performance sólida. Seguro nas cenas mais físicas e extremamente eficaz nos momentos de insegurança, o jovem ator sustenta o filme ao nos fazer sentir constante preocupação com o ambiente violento e manipulador em que seu personagem está inserido.
Jack O’Connell abraça o exagero e entrega um líder satânico bizarro, ameaçador e desconcertante. Sua estranheza não apenas define o tom da gangue, como também reforça o caráter brutal das interações com outros sobreviventes.

Ralph Fiennes é, como esperado, magnético. Seu personagem protagoniza o momento de maior insanidade do filme. Além disso, a trama em que ele começa a se aproximar de um zumbi alfa na tentativa de testar uma possível cura é muito envolvente. A ideia é fascinante, mas fica a sensação de que esse arco merecia um final a altura do seu potencial.
Ainda assim, acompanhar a conexão solitária entre um humano e uma criatura violenta, em um mundo devastado, é uma das experiências mais perturbadoras do longa. São nesses momentos que o filme encontra sua faceta mais filosófica.

No fundo, o longa fala sobre sobrevivência por meio da crença. Crer em algo pode ser uma salvação ou uma sentença de morte. Ao retratar humanos como figuras satânicas e violentas, enquanto humaniza um zumbi em processo de recuperação, o roteiro subverte papéis de maneira inteligente e provocadora.
A trilha sonora reforça a decisão de dobrar a insanidade. Há um contraste forte entre temas contemplativos nos momentos com Fiennes e composições caóticas e agressivas que acompanham a trama do culto, intensificando o desconforto.

Senti falta, no entanto, da retomada da ilha de origem de Spike. O final do filme anterior deixou um gancho poderosíssimo ao mostrar a criança nascida de uma mulher zumbi deixada aos cuidados do pai do protagonista. A ausência desse arco aqui é sentida, mas aumenta a expectativa para o próximo capítulo.
Extermínio: O Templo de Ossos é um filme ousado, híbrido e inquietante. Ele mistura gêneros, dobra as apostas do anterior e se aproxima narrativamente do espírito do longa original de 2002, ainda que funcione como uma ponte narrativa. Extremamente intrigante, e com uma cena final que só faz aumentar a expectativa para o que vem aí.


