Tem assuntos, mas foca no entretenimento

Justiça Artificial tenta nos fisgar ao unir mistério e ação por meio do formato screenlife, em que a narrativa se desenrola quase inteiramente através de telas. Esse recurso, já explorado em outros suspenses recentes, é usado aqui como uma forma de aproximar o espectador de um futuro distópico.
A grande provocação do longa está no uso da Inteligência Artificial como juíza, júri e executora. O roteiro busca abordar os lados positivos — eficiência, rapidez e redução da criminalidade — com os inúmeros riscos éticos, morais e humanos de delegar decisões finais a um algoritmo.

Na trama, Los Angeles entrou em colapso diante da violência urbana. Como resposta, o Estado cria uma IA responsável por acelerar julgamentos e execuções. É nesse contexto que acompanhamos um detetive veterano, peça-chave na implementação do sistema e responsável por conquistar a confiança da população. Porém ele se torna o principal suspeito do assassinato da própria esposa e passa a ser julgado pela mesma máquina que ajudou a legitimar.
O filme não perde tempo com introduções tradicionais. Logo de início já estamos no julgamento, bombardeados por informações a cada minuto. Ao mesmo tempo em que explica as regras desse novo sistema judicial, o roteiro tenta mostrar que o acusado ainda mantém o direito de se defender.

Uma das escolhas mais ousadas é contar essa história em tempo real, com uma contagem regressiva para que o protagonista prove sua inocência antes da sentença final. O recurso funciona bem para criar urgência e dinamismo, mas expõe fragilidades sempre que a narrativa precisa respirar ou aprofundar alguma ideia.
A dupla função do protagonista — suspeito e investigador — é interessante e rende bons momentos de tensão. Ainda assim, o excesso de informações, reviravoltas e janelas abertas na tela pode confundir o espectador menos atento, especialmente na tentativa do roteiro de parecer mais inteligente do que realmente é.

Esse problema se agrava quando o filme chega aos twists narrativos. Muitas motivações não são devidamente justificadas e alguns acontecimentos surgem apenas porque a trama exige, o que enfraquece o impacto dramático e incomoda, sobretudo no terço final.
Chris Pratt sustenta praticamente o filme inteiro ao lado de Rebecca Ferguson. Pratt funciona bem como o centro emocional da narrativa, equilibrando investigação e o desespero de quem sabe que é inocente, mas está prestes a ser condenado. Ferguson interpreta a IA, mas sofre com um texto carregado de frases de efeito e pouco aprofundamento da profundidade conceitual.
Justiça Artificial é um filme que levanta discussões relevantes sobre tecnologia, poder e justiça, mas nem sempre sabe como desenvolvê-las de forma consistente. A proposta é boa, o formato é interessante, mas o roteiro tropeça ao tentar acelerar conclusões e forçar complexidade.


