É uma série da Marvel sobre a Marvel?

Durante os últimos anos, a frase “isso é diferente de tudo que a Marvel já fez” foi bastante dita. Na grande maioria das vezes, era só parcialmente verdade: por baixo da embalagem nova, ainda estavam ali os mesmos vícios narrativos e estéticos. Magnum quebra esse ciclo. Pela primeira vez, o estúdio entrega algo que realmente se distancia de sua própria fórmula, não só no tom, mas na proposta e no olhar para si mesmo.
A série acompanha Simon Williams, um ator frustrado que vive em busca do papel que vai mudar sua vida: o protagonista de um remake do clássico de super-herói Magnum. O detalhe é que Simon guarda um segredo perigoso — ele realmente possui poderes, algo completamente proibido na indústria cinematográfica desse universo. Esse conflito já coloca a série em um caminho mais interessante do que o habitual.

A ambientação nos bastidores de Hollywood é um dos grandes acertos. Sets de filmagem, testes de elenco e outros elementos rendem momentos genuinamente engraçados. As referências a filmes, séries, atores e diretores surgem o tempo inteiro, quase como piscadelas para quem acompanha a indústria. Ainda assim, fica claro que só a metalinguagem não sustentaria uma temporada inteira com oito episódios.
É aí que entra Trevor Slattery. Sim, o mesmo falso Mandarim de Homem de Ferro 3, que virou piada interna do UCM e depois ganhou sobrevida em Shang-Chi. Aqui, o personagem deixa de ser apenas um alívio cômico reciclado e passa a ter um peso enorme na narrativa, tanto em tempo de tela quanto em importância emocional.

A dinâmica entre Simon e Trevor é, sem exagero, uma das melhores duplas já vistas no universo Marvel. Eles estão juntos quase o tempo todo, e em nenhum momento isso cansa. Pelo contrário: a série termina com aquela sensação rara de querer passar mais tempo com aqueles personagens, mesmo fora de grandes conflitos.
Individualmente, Yahya Abdul-Mateen II entrega um protagonista magnético. Simon é um ator perdido, sem muitas esperanças, mas cheio de carisma. A forma como o roteiro conecta o sonho do personagem com sua infância e com a importância simbólica de Magnum em sua vida é surpreendentemente tocante para uma produção da Marvel.

Outro mérito do texto é conseguir construir o passado de Simon de maneira orgânica, sem recorrer a flashbacks óbvios ou didáticos. Muito do que precisamos saber é dito em diálogos simples, bem encaixados, mostrando uma confiança rara na inteligência do espectador.
Ben Kingsley, por sua vez, está novamente impecável como Trevor. O ator domina cada gesto, cada pausa e cada olhar do personagem. Pela primeira vez, a série realmente aprofunda Trevor como alguém além da piada — e isso torna algumas escolhas no terço final muito mais impactantes do que se poderia imaginar.

Narrativamente, constrói pequenas histórias episódicas que existem principalmente para fortalecer a relação entre Simon e Trevor, mas isso não impede a existência de um arco maior coeso. O desespero de Simon, sua necessidade de provar seu valor e as decisões questionáveis que ele toma ao longo do caminho transformam a série em algo mais reflexivo do que aparenta.
Magnum não tenta ser uma grande engrenagem do UCM, nem se força a ser uma sátira agressiva de Hollywood. Ela funciona como uma carta de amor aos atores, às frustrações da profissão e às máscaras que se usam para sobreviver. Ao apostar em uma narrativa simples e em uma relação central muito bem construída, a Marvel entrega uma série bem diferente — e uma das mais interessantes.


