Quem diria que a “Disneyficação” poderia dar certo…

Depois do sucesso de O Predador: A Caçada, Dan Trachtenberg e a Disney perceberam que tinham algo especial ali. O diretor mostrou um domínio absoluto do clima, do suspense e do senso de escala, fazendo muito com pouco no filme para o Disney+. A Disney, por sua vez, viu a chance de ressuscitar uma franquia clássica e apresentá-la à nova geração. Agora, com um novo orçamento e uma ambição maior.
Expulso do seu clã, um caçador alienígena e um aliado improvável embarcam em uma jornada traiçoeira em busca do adversário supremo. Essa sinopse, aliás, poderia muito bem ser o ponto de partida de um épico de fantasia, mas funciona perfeitamente dentro do universo Predador, já que Trachtenberg reimagina o protagonista quase como o herói de um conto ancestral.

Antes desse filme estrear, a animação Predador: Assassino de Assassinos já dava pistas de que algo diferente estava vindo. Produzida em segredo, ela nos apresentou novos conceitos enquanto contava histórias diferentes, e ao final, nos coloca no mundo da raça dos alienígenas. Isso era um “gostinho” do que estava por vir. Aqui, a criatura não é apenas o ponto central da narrativa; ela é, de fato, o personagem que vive a maior transformação emocional.
Sim, isso poderia ter sido apenas um truque para chamar atenção, mas Trachtenberg faz tudo com tanto cuidado que a evolução emocional do Predador nunca soa forçada. Pelo contrário, vira força motora da trama. O filme consegue fazer você torcer por ele sem diminuir sua aura de criatura letal, o que é um equilíbrio bem mais difícil do que parece.

Desde o início, somos apresentados a um protagonista rejeitado pelo próprio pai e ignorado por seu clã. A jornada dele é simples, quase arquetípica: provar seu valor. E assim o longa não tenta parecer mais complexo do que é. Essa honestidade narrativa funciona demais, porque dá espaço para que o filme brilhe justamente no que faz melhor: construir tensão, ação e uma mitologia renovada.
Mesmo com essa estrutura básica, o longa aborda temas bem humanos, como paternidade abusiva, abandono e a eterna tentativa de ganhar reconhecimento. Isso alinhada a um toque de vingança que mantém a alma do predador. É uma mistura de camadas que nunca existiu na franquia e que agora aparece sem comprometer o espírito animal e guerreiro.

Trachtenberg trabalha tudo com calma. Ele coloca seu protagonista em um ambiente mais hostil do que ele próprio. Criaturas novas surgem, ecossistemas misteriosos são explorados e a sensação de descoberta é constante. Em vez de apenas repetir fórmulas de caça, o cineasta cria um mundo que respira, evolui e ameaça.
E aí chega o maior uma brilhante ideia: a presença de uma sintética da Weyland-Yutani. Trachtenberg, sem cerimônia nenhuma, une na prática as franquias Alien e Predador. A personagem funciona como espelho emocional do protagonista e como porta de entrada para o conceito de humanidade e o desenvolvimento de emoções. Isso não só ajuda no arco do Predador, mas também abre uma avenida de possibilidades para futuros crossovers.

Elle Fanning, claro, é o grande rosto humano do filme, interpretando não uma, mas duas sintéticas. Ela diferencia cada uma de forma tão clara que você esquece que são variações da mesma atriz. Mudanças de postura, fala, expressão e até ritmo corporal fazem as duas personagens parecerem seres totalmente distintos.
Também se torna um marco para a franquia o fato de termos um Predador mais expressivo fisícamente. Isso, claro, é motivado pelo arco narrativo de evolução do personagem, mas era um risco por conta da dificuldade da execução desse aspecto. Felizmente, o filme sucede ao unir um avanço de design e de maquiagem e figurino enorme. Mas também Dimitrius Schuster-Koloamatang, como ator, é excelente ajudando nisso.

Outro componente que também ajuda isso se tornar ainda mais fascinante é a criação e o desenvolvimento linguístico da espécie Yautja. É mais uma ferramenta que nos ajuda a aproximar do protagonista e nos envolver na jornada emocional e de autodescoberta.
A direção de Trachtenberg é, mais uma vez, absurda. Visualmente, o filme mistura fantasia com ficção científica, explorando ambientes exuberantes e hostis. A ação é impecável, sempre clara, brutal e cheia de inventividade. Ele respeita a essência do Predador original, mas brinca com novos equipamentos, táticas e rituais de caça.

Entretanto, apesar do ato final ser extremamente satisfatório, é inegável a existência de um desfecho que soa como apenas um começo de uma história. Isso pode se tornar algo negativo, se de alguma forma não for executado.
Predador: Terras Selvagens se torna algo raro: um filme de franquia que arrisca, muda e acerta. É ousado, empolgante e surpreendentemente sensível. A Disney pode até ter colocado seu selo ali, com a diminuição da classificação indicativa, mas é Trachtenberg quem deixa a marca mais profunda.

Eu realmente espero que essa nova fase das franquias Alien e Predador continue por esse caminho. Depois de O Predador: A Caçada, Alien: Romulus e agora Terras Selvagens, parece que finalmente estamos vendo um renascimento digno dos monstros mais icônicos da ficção científica.


